| Revista Sísifo – Feira de Santana – v. 1, n. 1 (2014-) nº 6 novembro 2017 Dossiê: Mulheres e FilosofiaFilosofia – Periódicos I ISSN: 2359-3121 |
APRESENTAÇÃO
A proposta desta edição da Revista Sísifo, aodiscutir o trabalho de mulheres que fizeram filosofia, é propiciar a divulgação de uma história de esquecimento. As mulheres, apesar da presença na filosofia em toda sua larga tradição e da qualidade das suas produções, ficaram na marginalidade do Panteão filosófico. Mulheres que, embora ocupassem essa posição incômoda dentro da filosofia, nunca deixaram de questionar a configuração tradicional do verbo pensar – estruturado por uma razão patriarcal.
Mesmo que atualmente os trabalhos de mulheres alcançaram maior reconhecimento do que outrora, as mulheres ainda encontram dificuldade para estabelecerem-se como pesquisadoras e professoras – sobretudo na área de filosofia no Brasil. O trabalho dessas pesquisadoras, que compreende as mais diversas áreas da filosofia, enfrenta obstáculos diários em um espaço acadêmico que, na prática, ainda considera a filosofia um discurso que emerge de um sujeito de conhecimento cujo gênero, não pronunciado, é masculino.
O silêncio que se tenta impor sobre estas autoras hoje é o mesmo que já se havia imposto sobre suas antecessoras, um silêncio contra a igualdade. O silenciamento como função de sustentação política do poder opressor funciona em duas vias: 1) via do esquecimento dessas vozes; e 2) via de sufocamento da criação e manutenção de vozes atuais. Silenciar estas autoras é uma atitude que infringe diretamente a possibilidade da diversidade de pontos de vistas na filosofia e, por conseguinte, a multiplicidade de conhecimentos possíveis daí resultantes. Essa história de esquecimento que contamos nesse dossiê não diverge da tentativa de sufocamento das pesquisas na área de gênero, nem mesmo da violência que as pesquisas nesse campo de conhecimento vêm sofrendo recentemente no Brasil.
Apesar de a maioria das autoras de base para os escritos aqui presentes ser estrangeiras, há um impacto em se importar este pensamento e inseri-lo numa realidade brasileira. Assistimos atualmente no Brasil um processo violento de depreciação da produção teórica sobre gênero. Esse processo, que se concretiza na tentativa de censura da discussão sobre gênero no ensino médio, na censura a produção artística, em ofensas e demonstrações públicas de ódio contra mulheres que se dedicam aos estudos de gênero. Atentos à violência que permeia esses atos, gostaríamos que esse dossiê, ainda que de maneira tímida, seja um ato de reafirmação da liberdade de pensamento e da resistência contra esse brutal retrocesso ao conservadorismo que nos avizinha.
Consideramos que pesquisas não podem ser censuradas ao gosto de quem delas discorda. Essa tentativa de silenciamento às pesquisas de gênero – produzidas, em grande media por mulheres – que presenciamos em tempos recentes em território nacional parece reforçar que a filosofia não é lugar para elas. Mais uma vez, as mulheres escrevem, mas não podem mostrar o que produzem publicamente. Para uma mulher hoje no Brasil, escrever e refletir sobre sua própria condição é um ato de coragem.
É preciso fazer a produção das mulheres na filosofia ressoar para além, inclusive, do debate sobre gênero que vem crescendo atualmente dentro da filosofia, e fazer alcançar patamar semelhante à dos homens em todos os campos da filosofia. O dossiê aparece num momento crítico da democracia brasileira, contudo, um tempo que necessita mais fortemente dessas iniciativas de coragem intelectual. Por isso, deixamos nosso profundo apoio aos pesquisadorxs brasileirxs no campo de estudo de gênero, bem como agradecemos à todxs os autores que contribuíram para a constituição deste dossiê e à contribuição de Luma Flôres e Patrícia Martins, cujos trabalhos ilustram os textos desta edição.
Karla Cristhina Soares Sousa
Laiz Fraga Dantas
Organizadoras
TEXTOS
DOSSIÊ: MULHERES E FILOSOFIA
LUGONES CONTRA A MODERNIDADE: PELA DECOLONIZAÇÃO DO GÊNERO
Laiz Fraga Dantas
FILOSOFIA DE SIMONE WEIL: UMA MÍSTICA DA AÇÃO E CONTEMPLAÇÃO
Maria Simone Marinho Nogueira
EGÉRIA (SÉC. IV/V), A PRIMEIRA ESCRITORA EM LÍNGUA LATINA DA IDADE MÉDIA
Marcos Roberto Nunes Costa
UMA POSSÍVEL ONTOLOGIA DA DOR NA METAFÍSICA DE ANNE CONWAY
Pedro Rhavel Teixeira
MORTE E SUPERAÇÃO, TIBURI E A FILOSOFIA FEMININA
André do Carmo Otoni
HANNAH ARENDT E A CONDIÇÃO HUMANA DA PLURALIDADE
Marcus G. M. Santos
FILÓSOFAS: INVISIBILIDADE E SILENCIAMENTO
Joana Tolentino
A ATUALIDADE DO PENSAMENTO DE HANNAH ARENDT EM TEMPOS DE SUBTRAÇÃO DE DIREITOS
Raimundo Expedito dos Santos Sousa
Elielson Martins Ferreira Filho
ROSWITA DE GANDERSHEIM E O PAPEL PSICO-PEDAGÓGICO DA ARTE NAS OBRAS DA TEATRÓLOGA MEDIEVAL
Marcos Roberto Nunes Costa
DIÓTIMA E A CONSTRUÇÃO DA LEGITIMIDADE DO PENSAMENTO DA DIFERENÇA SEXUAL NO ESPAÇO PÚBLICO
Gigliola Mendes
O AMOR E O FEMININO NO DISCURSO DE SÓCRATES-DIOTIMA NO BANQUETE DE PLATÃO
Felipe Gustavo Soares da Silva
ARTIGO
ESTÉTICA E PENSAMENTO EM MERLEAU-PONTY, OU: SOBRE O SENSÍVEL E SEUS REBENTOS
Vânia Vicente
CRÍTICA
POR QUE AINDA ESTAMOS VIVOS?
José Feres Sabino