| Revista Sísifo – Feira de Santana – (2014-) nº 19, Vol. único, 2025 Filosofia – Periódicos ISSN: 2359-3121 |
Apresentação do Dossiê:
Inteligência natural e artificial: perspectivas filosóficas sobre cognição, técnica e sociedade
Os debates sobre os perigos e benefícios da inteligência artificial (IA) ganham cada vez mais espaço na mídia e nas redes sociais. No entanto, essas discussões frequentemente partem de pressupostos não questionados sobre noções como inteligência, artificialidade, técnica, humanidade, mecanismo e organismo. Mesmo no campo filosófico, muitas vezes prevalece uma abordagem centrada exclusivamente na dimensão cognitiva, negligenciando ressonâncias políticas, econômicas, estéticas e ontológicas que acompanham o desenvolvimento dessas tecnologias. Esse diálogo truncado com as tradições históricas da filosofia e da ciência impede que compreendamos plenamente as transformações profundas provocadas pelas novas tecnologias de aprendizado profundo e IA generativa, por exemplo.
Tradicionalmente, a inteligência foi concebida como o atributo distintivo do ser humano, marcado por uma dicotomia hierárquica: a percepção sensorial do corpo seria associada a uma “cognição inferior”, ou mesmo de ordem animal, enquanto o entendimento racional mediado linguisticamente por conceitos representaria uma “cognição superior”. Essa divisão, que ecoa oposições clássicas da filosofia — natureza e espírito, corpo e mente, sujeito e objeto —, é colocada em xeque pela emergência de formas de inteligência artificial. A IA, que pode operar tanto sem um corpo orgânico quanto em configurações híbridas entre mecânico e biológico, desafia não apenas a ideia de que a inteligência é exclusiva dos humanos, mas também os próprios fundamentos das categorias tradicionais que estruturam nossa compreensão do pensamento e da vida.
Como equilibrar a autonomia funcional da inteligência com sua dependência do corpo e do ambiente? É possível transcender os limites materiais sem negligenciar as condições específicas que dão origem à cognição? Como conciliar a busca por princípios universais com o respeito às diversidades culturais e históricas que moldam nossa compreensão da inteligência? Essas questões evidenciam tensões fundamentais entre abordagens que veem a inteligência como independente de sua base material e aquelas que a entendem como profundamente enraizada no contexto físico e cultural.
Diante desses desafios, a revista Sísifo apresenta o dossiê: “Inteligência natural e artificial: perspectivas filosóficas sobre cognição, técnica e sociedade”. Organizado pelo doutorando Régis de Melo Alves (CAPES/USP), esta proposta teve como fim construir um número interdisciplinar, cujos textos não apenas mapeassem os desdobramentos técnicos e científicos da inteligência artificial, mas sobretudo interrogassem os pressupostos filosóficos que estruturam, e muitas vezes limitam, essa discussão. Desse modo, convidamos dos artigos e entrevista que investigam, cada um ao seu modo, as tensões entre natureza e artifício, corpo e cognição, técnica e imaginação, a partir de diferentes tradições do pensamento filosófico.
O ensaio de Ybine Dias investiga a relação entre técnica e imaginação artística no mundo pós-industrial, apoiando-se em Simondon, Flusser e Latour para questionar se as novas tecnologias atrofiam ou expandem a criatividade humana, e defender uma abordagem filosófica transdisciplinar que supere as dicotomias modernas e integre saberes diversos.
Catherine Daher e Marc Berdet retomam o diagnóstico benjaminiano sobre a reprodutibilidade técnica para confrontá-lo com a inteligência artificial, sem luto algum pela perda da aura, interrogando o que resta da singularidade artística quando a lógica algorítmica transforma a variação em redundância e a criação parece dissolver-se na estatística.
Fernando Pozetti Filho examina os fundamentos teóricos do aprendizado profundo de máquina, articulando análise técnica das redes neurais com reflexão filosófica sobre cognição e consciência, e colocando a questão central: seria a arquitetura artificial derivada do cérebro, ou ambos operam segundo as mesmas estruturas?
Filipe Lucas Guterres defende uma leitura corporificada e externista dos experimentos de pensamento do “cérebro na cuba” e de Matrix, argumentando pela indissociabilidade entre corpo, mente e ambiente, e propondo as hipóteses do organismo cuba-cérebro e da Matrix-Gaia como versões radicais dessa tese.
Lucas Omer Severen Surjus investiga a relação entre metáfora e literalidade no registro filosófico, propondo um terceiro registro — nem metafórico nem literal — que chama de reconfiguração eufórica, estendendo à linguagem a noção de artificialização de Negarestani para pensar um plano verbal em que a diferença entre natural e artificial se dissolve sem recorrer ao correlacionismo kantiano.
Ingrid Mayumi da Silva Yoshi e Samuel Roberto Silva examinam a interseção entre filosofia da mente e inteligência artificial, discutindo a distinção entre IA fraca e forte, os níveis de desenvolvimento da IA e as principais propostas para sistemas conscientes, concluindo que o desafio permanece tanto técnico quanto filosófico.
Por fim, a entrevista de Camila Ezídio com Cristian Arão percorre o trajeto intelectual do autor de “IA Entre Fantasmas e Monstros: Como os Algoritmos Precarizam o Trabalho e Alimentam o Autoritarismo”, discutindo como a inteligência artificial espelha desigualdades e assimetrias de poder já existentes, e quais instrumentos, regulatórios e estruturais, seriam necessários para transformar esse campo de batalha.
Este número conta ainda, em sua seção de fluxo contínuo, com o artigo de José Fernando Saide Jambe e Eusébio dos Santos Gervásio, que identifica, a partir de relatos de professores recém-formados, um desfasamento entre as expectativas da formação inicial e a prática real em sala de aula, concluindo pela urgência de repensar políticas de integração e apoio ao docente iniciante.
Régis de Melo Alves (CAPES/USP), editor
Dossiê “Inteligência natural e artificial: perspectivas filosóficas sobre cognição, técnica e sociedade”
Artigos
Ensaio sobre a imaginação em um contexto tecnológico pós-industrial
Ybine Dias
visualizar | PDF 1-13
Walter Benjamin na praia de Copacabana:como a IA mina, mais uma vez, a aura da obra de arte
Catherine Daher e Marc Berdet
visualizar | PDF 14-43
Topologia e cognição artificial: fundamentos teóricos do aprendizado profundo de máquina
Fernando A. Pozetti Filho
visualizar | PDF 44-74
O organismo cuba-cérebro e a hipótese de Matrix-Gaia: interpretações corporificadas para a experiência em realidade virtual
Filipe Lucas Guterres
visualizar | PDF 75-100
Natureza artificial: o problema da metáfora nas ontologias contemporâneas
Lucas Omer Severen Surjus
visualizar | PDF 101-114
Intersecção da Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
Ingrid Mayumi da Silva Yoshi e Samuel Roberto Silva
visualizar | PDF 115-136
Entrevista
Entrevista com Cristian Arão
Cristian Arão e Camila Ezídio
visualizar | PDF 137-141
Fluxo Contínuo
A Motivação dos Professores Recém-formados: Expectativas e Realidades no Início da Carreira
José Fernando Saide Jambe e Eusébio dos Santos Gervásio
visualizar | PDF 142-157