Chamada para contribuições:
A Tradução como Problema Filosófico
É parte constitutiva da formação e do trabalho de pesquisadores em filosofia operar com traduções. Afinal, já no início de sua formação, pode ser que não se disponha ainda de conhecimento suficiente da língua para ler determinados autores no original. Além disso, na medida em que traduções fazem parte do seu estudo, e em que se adquire um maior conhecimento da língua original do autor trabalhado, torna-se importante estabelecer critérios para julgar os méritos e deméritos de diferentes propostas de tradução relativas a determinadas expressões ou passagens. Também pode ser o caso de o pesquisador produzir, como parte do seu trabalho, traduções de textos de filosofia, quer já disponíveis, revisando opções de acordo com aqueles critérios estabelecidos, quer ainda não disponíveis em sua língua, a fim de promover o debate e estudo a seu respeito.
Para além de ser uma exigência técnica para a sua formação, porém, ou uma ferramenta necessária de sua atividade como pesquisador, a tradução traz consigo mesma questões de natureza intrinsecamente filosóficas e inseparáveis da própria filosofia como atividade. Afinal, o próprio ato de traduzir já levanta questões como: é possível traduzir fielmente um texto em outra língua, preservando o seu sentido? Até que ponto a língua em que um pensamento é expresso é inseparável do próprio pensamento formulado por meio dela? Traduzir seria o mesmo que interpretar? Se não, qual seria a diferença? Uma explicação, com termos diferentes do autor, mas no mesmo idioma, poderia ser chamada de tradução? Como? Uma adaptação, por exemplo, de um texto escrito para um filme, poderia ser compreendido como uma tradução de uma linguagem para a outra? Em que medida? Como é possível a tradução? Em última instância, quais os seus limites?
Para além de questionamentos filosóficos sobre a tradução e sua natureza, é possível, porém, uma reflexão metafilosófica sobre a própria relação entre filosofia e tradução: não poderia, por exemplo, a filosofia ser pensada como uma tradução do espanto (thaumázein) diante o mundo? Se uma explicação pode ser entendida como uma tradução, então, não seria toda filosofia uma espécie de tradução? Não seria a criação de conceitos uma tentativa de traduzir, em uma linguagem clara, experiências e fenômenos do mundo que não encontrariam uma expressão adequada no uso cotidiano da linguagem? Até que ponto, então, a tradução não seria apenas mais uma ferramenta do filósofo, mas indispensável ao próprio ato de filosofar?
Com essas questões em vista, abrimos a chamada para contribuições para o dossiê da Revista Sísifo sobre “A tradução como problema filosófico”. Serão bem-vindas contribuições que discutam filosoficamente a tradução, traduções inéditas* de textos filosóficos (sobretudo se acompanhadas por uma reflexão introdutória sobre o processo de tradução das mesmas), assim como contribuições que se proponham a desenvolver discussões sobre a tradução de algum termo especial ou alguma passagem de uma obra filosófica. Outros tipos de contribuição não mencionados acima, mas que dialoguem com a proposta do dossiê e da chamada também serão bem-vindos.
*Observamos que, no caso de tradução de textos protegidos por direitos autorais e que não se encontram em domínio público, nossa política editorial estabelece que a tradução submetida deve ser acompanhada de carta de autorização do autor ou do detentor dos direitos autorais do texto original.
Prazo para envio de artigos: 01/01/2027
Aguardamos ansiosamente pelas suas contribuições, e estamos disponíveis para quaisquer esclarecimentos pelo e-mail da Revista, revistasisifofilosofia@gmail.com
Atenciosamente,
Organizadores do Dossiê
Carla Oliveira
Laurênio Sombra
Lucas Nascimento Machado
Marloren Miranda Lopes